A vez das “magrelas”

Paris é uma das cidades mais charmosas do mundo. Mas, como toda grande cidade, ela sofre com problemas de tráfego. Nos últimos anos, alguns projetos buscam melhorar a mobilidade urbana, e o destaque é o Vélib, que dispõe de bicicletas públicas junto às estações de metrô para empréstimo, 24 horas por dia. Como diz o mote do projeto, a cidade é mais bela de bicicleta.

Nova Iorque, a seu modo, também é uma bela cidade. E, como cantou Frank Sinatra, se você vence em Nova Iorque, você vence em qualquer lugar. Essas pessoas vencedoras na capital do mundo usam o transporte público. A bicicleta também, sempre esteve lá, disputando lugar com os carros. Mas agora a cidade entendeu que ela é um importante meio de transporte em época de crise energética e consciência ambiental e social, e vem abrindo espaço para os ciclistas, com ciclovias, ciclofaixas e paraciclos (como aqueles aros chumbados no piso para prender as bicicletas). E elas não estão apenas nos parques ou junto aos rios, mas nas ruas centrais da cidade.

A bicicleta, no Brasil, tem uma história mais triste: ou era associada a presente para crianças (você com mais de 30 anos se lembra das campanhas de natal com os bilhetinhos de “não esqueça da minha Calói”); ao uso de lazer; ou, finalmente, como única possibilidade de deslocamento para os trabalhadores mais pobres.

Talvez essas associações tenham causado problemas para que a bicicleta fosse vista como um meio de transporte sério e nobre. Mas se a bicicleta for encarada como o melhor meio de transporte para distâncias pequenas e médias, como se fez em Paris e em Nova Iorque, colocando-se infraestrutura adequada nos principais eixos de deslocamento e polos de tráfego, as pessoas poderão preferir a bicicleta. E se essas cidades, entre as mais importantes e populosas do mundo, criaram ciclofaixas em suas ruas centrais, não há qualquer desculpa para que nossas cidades não possam fazer o mesmo.

O ciclista sabe que terá benefícios para sua própria saúde, e também econômicos – sem gasto com tarifa de ônibus, ou, de carro, com combustível e estacionamento. Porém, todos nós deveríamos saber, as “magrelas” trarão benefícios para toda a cidade. Cada ciclista é um motorista a menos nas ruas. É alguém que poluirá menos, e que incentivará o comércio nas redondezas de sua casa, pois não poderá transportar grandes volumes por longas distâncias. É também alguém que procurará usar os espaços públicos para lazer, como parques e ciclovias nas redondezas de sua casa. Enfim, alguém que poderá manter toda a cidade viva.

Hoje, quando falamos isto, diversas vezes nos veem como irrealistas (como disse um colega da UFPR, nos enxergam como um daqueles que, mesmo adulto, ainda pede sua Calói no Natal). Mas um dia Curitiba teve orgulho de seus ciclistas e ciclovias – hoje em boa parte sucateadas. Quem sabe agora que Paris, Nova Iorque e até São Paulo estão dando mais atenção aos ciclistas, Curitiba não volte a olhar por nós – e novamente de modo inovador.
Fábio Duarte é diretor do doutorado em gestão urbana da PUCPR.

Artigo publicado originalmente na Gazeta do Povo, em 25/05/2009, por Fábio Duarte. Link: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=889558&tit=A-vez-das-magrelas

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